Sokaku Takeda e a tradição do Daito-ryu

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por Stanley Pranin

Traduzido por Muryllo Amalio de Souza

Recentemente, AIKI NEWS aumentou o escopo de suas pesquisas para incluir estudos regulares sobre Sokaku Takeda e arte Daito-ryu. Os leitores irão reparar que artigos sobre Daito-ryu têm aparecido regularmente em alguns das ultimas edições e planejamos continuar com essa prática por período indeterminado. Como é previsível, nossa aventura no mundo do Daito-ryu não tem encontrado aprovação de todos. Para alguns, o personagem de Sokaku Takeda não representa um modelo a ser copiado.

Certamente, aqueles que prezam pela natureza ética do Aikido não irão encontrar atrativo em um homem envolvido em combates reais e que matou muitos no curso de sua longa vida.

Por outro lado, parece ser de concordância unânime daqueles que conheceram Sokaku Takeda que ele foi um verdadeiro gênio marcial, possuidor de incríveis habilidades e forte percepção. A grande habilidade marcial de Sokaku foi, sem dúvida, o resultado de incrível autodisciplina e preocupação permanente com a excelência técnica.

Ainda, essas considerações estão, em sentido fundamental, fora da discussão. Como historiadores, nós não escolhemos quem pesquisar e quem ignorar. A História determina que nós sistematicamente examinemos todos os eventos e pessoas relevantes na criação do Aikido de O’Sensei. O fato de um determinado aspecto de nosso trabalho desagradar alguém ou alguma organização é, suponho, inevitável. Claramente, não há outra abordagem a ser feita se desejamos fazer justiça dos pontos específicos de nossos estudos, Morihei Ueshiba e Aikido. A informação que temos descoberto envolvendo Daito-ryu tem servido enormemente para enriquecer nosso entendimento das raízes técnicas do Aikido e nós esperamos que os leitores também considerem esse material interessante.

Tudo isso suscita a questão principal de em que extensão o Aikido foi influenciado pelo Daito-ryu. Para ser exato, Morihei Ueshiba estudou várias artes marciais tradicionais durante os anos de 1901 até 1922. Documentação escrita e o testemunho de Kisshomaru Ueshiba e de outras pessoas confirmam que, mais tarde, no fim dos anos 30, o Fundador foi influenciado pela arte da espada Kashima Shinto-ryu. Ainda de todas as artes que Morihei Ueshiba estudou, tecnicamente falando, o impacto do Daito-ryu no Aikido foi muito mais significativo e eu gostaria de fornecer aqui a sustentação para esta afirmação. Nós sentimos que é necessário esgotar esse ponto porque nos dias atuais tem existido uma forte tendência no Aikido ortodoxo de retratar o Daito-ryu meramente como uma das numerosas influencias técnicas na arte de O’sensei ou mesmo afirmar que “Goto-ha Yagyu-ryu” deixou influencia mais forte no Aikido.

Essa prática foi levada ao infeliz e eticamente questionável extremo de alteração de documentos históricos em um esforço de obscurecer a profunda relação entre Daito-ryu Aikijujutsu e o Aikido em seu período inicial de desenvolvimento.

Embora se indique que o estudo de Morihei Ueshiba tenha se limitado a algumas semanas, documentos que estão em posse do filho de Sokaku Takeda, Tokimune, trazendo o selo pessoal de O’Sensei, contam uma história bem diferente. Além de tudo, registros disponíveis mostram que o Fundador do Aikido estudou por mais de 200 dias através de intensivos seminários, começando em 1915 e até ao menos de Abril de 1931, data do último registro na lista de alunos de Sokaku Takeda. Além disso, Morihei acompanhou Sokaku Takeda como assistente em várias ocasiões, quando este viajou por Hokkaido ministrando seminários durante o período de 1915 a 1919. Foi concedido a ele o certificado de instrutor oficial em Ayabe em 1922. Uma fotografia publicada na biografia do Fundador, também datada do mesmo ano, mostra O’Sensei sentado na frente de uma placa onde se lê “Daito-ryu Aikijujutsu”. Esta placa aparentemente apareceu no dojo “Ueshiba Juku” onde ele ensinou primeiramente seguidores da Omoto do ano 1920 até a primeira parte de 1924. E, os certificados de proficiência concedido por Ueshiba à seus alunos nos anos pré-guerra eram de “daito-ryu aikijujutsu”. Era certamente o caso do início dos anos 30, no entanto, não sabemos até que ano esta prática se prolongou. Em meado dos anos 30 até início dos anos 40 a arte era usualmente referenciada como “Aiki Budo” até seu nome mudar oficialmente para “Aikido” em 1942.

Maior prova da relação entre Daito-ryu e Aikido permanece na forma de algumas centenas de fotografias de técnicas em posse de Kisshomaru Ueshiba e Morihiro Saito, obtidas no período de 1935-36 no Dojo Noma em Tóquio. A grande maioria dessas fotos contém seqüência de técnicas que seriam não familiares para a maioria dos praticantes de Aikido modernos. Sem surpresa, caem perfeitamente dentro do repertório de técnicas da Escola Daito.

As observações acima, creio, fornecem um argumento forte para a próxima e histórica conexão entre Sokaku Takeda e Morihei Ueshiba, mas e sobre as outras artes marciais que reputam a Ueshiba ter treinado? Esse assunto foi completamente coberto em um excelente artigo intitulado “A experiência em artes marciais de Morihei Ueshiba” de Laszlo Abel, a ser publicado em breve em AIKI NEWS. Suficiente dizer que O’Sensei teve experiência em várias artes clássicas e talvez também em Judô, mas na maioria dos casos seu estudo não poderia, em caso algum, ser considerado profundo.

A única possível reserva poderia ser o que O’Sensei referia-se durante sua vida simplesmente como “Yagyu-ryu” e o que seu filho, Kisshomaru, afirmou em recentes livros e palestras ser Goto-ha Yagyu Ryu. Provavelmente, esta visão é baseada no certificado de proficiência recebido por O’Sensei em 1908 e agora em posse de seu filho. Considerando o início dos treinos de O’Sensei e a lacuna de informação a respeito das áreas técnicas abrangidas por esta escola no início deste século, é difícil apontar qualquer influência técnica específica no Aikido Moderno. Além disso, O’Sensei não estabeleceu qualquer ênfase em particular a esta escola “Yagyu” sobre outras que treinou quando entrevistado, mas ele reconheceu a dívida perante Sokaku Takeda em repetidas ocasiões. Certamente, se a escola Goto-ha foi de particular importância no desenvolvimento do Aikido, este fato teria sido trazido à luz muito antes dos dias de hoje, 78 anos decorridos desde que o Fundador recebeu seu certificado de proficiência. De qualquer modo, a oportunidade para estudiosos examinarem este certificado poderia, sem dúvida, permitir uma avaliação mais aprofundada sobre o tema.

O que é que está no cerne desta óbvia relutância em render justiça à contribuição do Daito-Ryu ao desenvolvimento do Aikido? Claramente, a maior parte do problema é que estas duas artes são freqüentemente confundidas entre si em virtude da ambigüidade em torno do termo “Aikijujutsu”. Este termo é freqüentemente utilizado como simplificação para Daito-ryu Aikijujutsu por um lado e também para se referir ao Aikido pré-guerra, anterior ao período do “Aiki Budo” (meados dos anos 30 e inicio dos anos 40), por outro. Isto obviamente perturba defensores de ambas as artes e eles, às vezes, consomem bastante tempo apontando diferenças entre elas. Outro fator em jogo é que, em algum ponto muito cedo em sua relação, um desentendimento surgiu entre Sokaku Takeda e Morihei Ueshiba. Algo como uma relação de “amor e ódio” havia entre professor e aluno e este fato imediatamente tornava-se claro quando se conversava com ambos os lados. Por exemplo, ambos fizeram acusações um contra o outro a respeito de quantias de dinheiro e esses pontos de discordância continuam a ser perpetuados até hoje através de seus herdeiros e alunos.

Independente disso e tomando uma visão mais ampla, o fato do assunto ser artes marciais, historiadores irão inevitavelmente classificar as duas artes como parte de uma mesma linha técnica enquanto, esperamos, tenha-se a preocupação de reconhecer suas muitas diferenças. É também certo que Aikido e Daito-ryu Aikijujutsu têm uma existência simbiótica e uma tem provocado considerável interesse na outra. Talvez, nós estamos agora em um momento histórico, onde esta situação possa, finalmente, ser reconhecida e as diferenças que separaram algumas gerações possam, um dia, ser esquecidas. É neste sentido que estamos trabalhando e esperamos que isto seja reconhecido um dia pelas partes envolvidas. Paz.

This article is used with the permission of Aikido Journal and originally appeared in Aiki News #71 (June 1986).